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derrame embriegado

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bebedeiras repetidas, simples utopias do que costumava ser a saudade, a cerveja entornada sobre as pedras da calçada daquela cidade alheia, e as manchas de vinho tinto nas roupas já escarlate. saudade, soubesse eu explicar o que fora para mim essa palavra tão portuguesa, a maior das fantasias humanas, a ideia de amar e ser amado, bebedeiras apenas, palavrões de taberneiros, nada mais do que lágrimas que embebedam vagabundos, do que crenças pura e ingenuamente infantis. e ainda assim, certa de que no amor nada nos resta para além da eterna sofreguidão dos outros, a utopia de querer comer sem ser comido, ainda assim me perco, entre os desastres esperançosos de amores históricos, quando a única coisa que quero dizer-te é que o meu amor - utópico, ridiculamente irreal e injustamente morto - te espera neste espaço psicológico de inferno e insatisfação, no desassossego deste ruivos caracóis, de robe escarlate, sobre a lividez d...

derrames de esquinas distintas

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o silêncio do meu próprio corpo derrete-me a alma, este desassossego de quer ser tão intocável, de quem quer ter o que tinha sem sofrer as consequências do tempo, dos dias. enganei-me, quis ser aquilo que o meu padrão me pede, quis ser imune as consequências dos meios que nunca justificariam o fim. e quis morrer de amores em esquinas diferentes, quis que um deles me levasse ao nirvana inatingível e me conservasse tóxica no apogeu daquele orgasmo. quis que uma dessas esquinas me engolisse, me amasse desse modo que só eu entendo, de um modo imensamente carnal mas que nada acrescenta à minha viagem interior. e quis que essa relação de esquina se mantivesse saudável, que amar assim me mantivesse doente de tão apaixonada. mas o amor morreu, morreu longe, numas quantas esquinas à frente, morreu de frio por andar nu na rua, em correrias desenfreadas sobre uma chuva gelada de um inverno violento. e a minha...

derrames incendiários

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a vida toda ouvi dizer: onde há fumo, há fogo . e vou calhar aqui, neste metro quadrado de cidade onde a lei é: onde é fosforo, há incêndio.

derrame de nicotina

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por favor, deixa-me só fumar um último cigarro antes de fechar a janela, o último antes de apagar a televisão, por favor, só mais um antes de me meter nessa nossa cama. deixa-me só afogar-me num vicio mais antes de me deitar aí, onde - embora acompanhada - terei frio a noite toda, aí onde os fantasmas tanto aplaudem as minhas lágrimas de bela adormecida, aí onde adormecerei a chorar bem longe desses teus braços abertos. para acordar de manhã num sufoco, com a ideia de que de um sonho se trata, e assim que a realidade de der um valente estalo pela manhã, eu vou ligar a rádio, vou acordar-te o sono, vou abrir a janela e fumar o que resta do meu maço.  e vou matar-me assim, desgostosa porque a realidade a mim não me diz nada.

derrame vazio, completamente morto.

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hoje, logo hoje que toda esta raiva me enche o peito vazio. hoje a poligamia morreu nos meus lençóis porcos, morreu nua, de cigarro na mão e linha ainda torta, morreu sedente, completamente insaciável, porque nenhum alguém a fazia gemer do jeito que mais gostava. a poligamia morreu - como sempre - sozinha, sem padre à cabeceira, apenas uma garrafa quase vazia de aguardente velha, um tanto ou quanto entornada. e o erotismo morreu assim, quase tão virgem como a freira, sem conseguir reter na memória morta algo de bom para guardar, um gemido apenas, um cliente apenas que tivesse valido a memória. mas não, esta puta morreu-me assim, sozinha, sem ter tido tempo para me alinhar a branca, morreu-me doente, tão podre no físico como na alma. sozinha, repito: sozinha . e a consciência, calada desde que sou capaz de recordar apenas tossia.  cínica, ficou calada anos a fio, viu-me morrer em bebedeiras sóbrias dos outros, viu-me foder a vida mais do...
Hoje o meu corpo torna-se cadaver. Logo hoje, quando o mundo se decidiu a ser o meu caixão

putas modernas

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E eu cheguei ao ponto de não saber mais quem tem a razão, as pessoas e a suposta lógica que usam e abusam para viver ou sobreviver entre os outros já não faz qualquer sentido. Para eles, pensar é um cliche , como dar rosas a uma mulher, todos o fazem, todos chegam a mesma definição de bem e mal e no final, a história e sempre a mesma. Caiu, berrou . Se calhar fui eu que pensei mais, ou menos, mas foi-me impossível chegar a uma definição concreta de todas essas questões morais que tanto discutem em conversas de café, esquecidas entre o pacote de açúcar e os cinzeiros. Viver aqui tornou-se imoral, errado, como se já não fizesse qualquer sentido ouvir as vossas palavras rascas, suadas e empobrecidas nas vossas mentiras de putos mimados. Não faz mais sentido os sorrisos cínicos à meia luz de um bar já fechado, chega de mentiras assim, de cacos assim, tão docemente cristalizados nas vossas epidermes pálidas, homogéneas no meio de tantos iguais. Ser humano tornou-se mau, pecaminoso, sê-lo nã...
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e foi rasco de ti achar que em mim podias ficar. foi tão tipicamente ordinário que fizesses de mim uma puta como todas as outras. e eu que tanto me martirizo por achar que fui tão fácil, porque é isso que achas não é? achas que fui tão facilmente tua que nem consegues por em questão a minha capacidade de te ser fiel. achaste que, lá porque tinha voltado, isso significava que seria tua, de corpo inteiro e alma vazia, sim, porque tu nem interesse tinhas na minha alma existente. nunca quiseste saber, nunca ousaste ler as minhas entrelinhas, a minha maneira de ser sarcástica, de usar tanto hipérboles como eufemismos. nada disso era do teu interesse, chegavam-te umas dentadas ao de leve, uma respiração suave nos teus ouvidos, que te levavam a um orgasmo tão fácil e rápido. para ti, desde que a minha interacção permanecesse um mistério para a tua precária mente, então tudo estava bem, porque no teu pensamento primário, tudo o que era novo e que ainda não tinhas visto noutro alguém, era perfe...

lábios cremados

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e naquela manhã empoeirada, num quarto sujo dos meus orgasmos fingidos, sob o ar carregado dos teus inaudíveis gemidos, os teus lábios souberam a pó. nada em ti soube e mim, nada pela manhã teve o perfume da noite anterior, dos dias anteriores. e não porque estavas gasto, demasiado usado apesar da tenra idade, não. o teu desgaste era de mim, de um corpo que conhecias como impuro, que sabias não ser fiel ao que desejava. sentia ainda os teus lábios cerrados sobre os meus seios quase inexistentes de miúda, e a ideia de te ter na mesma cama, desnudado de tudo, seria sempre o auge da minha libido. mas a ideia de te ter comigo, sempre na mesma mesa de jantar, em diferentes salas de cinema, já não seria o auge da minha satisfação pessoal, apenas um carrego, algo que seria desconfortável com o passar das horas. já não conseguia amar-te. naquela manhã, o meu corpo levou a minha alma à imunidade de algo tão dramático como amar.

amor é crença

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- porque deixaste de cá vir? de apanhar o mesmo autocarro todas as sextas? - porque a minha frieza tornou-se volátil entre os teus lábios grossos e novos. por vezes, nua na tua cama vazia de todas elas, eu sentia-me vulnerável, não por saber que os teus ouvidos se enchiam de orgasmos alheios (porque eu sei que não), mas sentia-me completamente desarmada pelo teu encanto de miúdo novo, feliz. estar contigo mostrou-se um perigo, já não era seguro que poderia sair dai como tinha entrado, com o queixo erguido. - amar é ser vulnerável, sempre ouvi dizer. - o amor está morto miúdo, há muito. o amor é uma hipérbole usada pelos poetas, o amor é sobrevalorizado, tal como a perfeição. não faz parte de nós. o  amor  de que tanto falas está sujo, completamente embriagado connosco, faz-nos companhia nestas ruas que pela noite fora se vão entortando. amor... - porque te custa assim tanto acreditas que me amas? - porque sobre o amor fizeram-se cântigos antigos, musicas modernas, livros ...

à tona

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Mas eu ainda creio que és doce, que bem no fundo não passas de algo quente que for amornado até se tornar um gigantesco e intocável cubo de marfim. Mas eu sei que ainda és fina, de um certo modo delicada, que o teu pai ainda acha que bebes água em todos os jantares e que dormes sempre em casa de amigas diferentes, cujos nomes vais inventando com base na imaginação da noite anterior. Tudo porque tu não és tão fel assim, não és esse ácido que juraste a ti mesma cumprir, és - novamente - algo que era doce e que foi amargando ao longo do tempo, foi ficando enferrujado e perdendo a prática, o jeito. Mas no final de contas, tu foste a que nunca se deixou estagnar, a que não se deixou apodrecer e morrer nas mesmas ruas ordinárias de tantos outros sem nome. Tu ficaste acordada, alerta em relação a noites como aquelas em que foste deixada nua, sozinha, na tua piscina da casa de verão. Pronta a afogamento, longe de tudo o que - todo os dias - luta para te deixar a tona.

a sua pele marcada na tua

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- não consigo mais ver-te aí, coberto do perfume dela. encharcado desse odor ácido e demasiado feminino para ser suportado. já não me interessa quantas vezes tomaste banho, ou há quanto tempo não roças esse teus olhar ordinário nas curvas das suas ancas. nem tão pouco desejo saber que roupa usaste na sua casa ou nos teus longos jantares de trabalho , não quero saber se puseste a roupa a lavar.  - tu disseste que ficavas comigo, que me aceitavas de voltar porque amor é amor. - e eu quis aceitar-te. quis que ficasses comigo mesmo que isso exigisse fazer das minha tripas, coração para te perdoar. e eu perdoei, acredita-me. no entanto eu não consigo viver na mesma casa que vocês os dois, e ver todos os dias, ao acordar, o rosto dela marcado no teu, o perfume dela marcado na almofada da minha própria cama. não consigo mais ficar a ver-te vestir e soar tudo falso pela madrugada, como se, em formato masculino, todas as manhãs vestisses parte dela em parte de ti. mas eu amo-te acredita que...

espelho meu, haverá alguém que ame mais do que eu?

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sinto a tua pele marcada de encontro aos meus lábios rachados do frio, sinto a garganta gelar numa inspiração desse teu ar carregado de podres deles, podres de tudo o que pelo caminho apanhas. quiçá, um dia talvez respirar se torne bom, quiçá talvez um dia o espelho seja um bocadinho mais simpático com os elogios . talvez um dia ainda seja eu a princesa, sobre a qual se escreverão livros e se farão filmes de desenhos animados, que dirá ao espelho: " espelho meu espelho meu, haverá alguém que ame mais do que eu."  tomara tu. tomara eu. sinto as curvas do meu corpo arrepiadas, pouco confortável com a ideia da tua presença em tais lençóis. pensar em ti há muito que deixou de ser abrigo, como sonho para adormecer, que era sonho e fantasia ainda que acordada. ficar em ti, aí dentro deixou de seu o meu predilecto repouso, aquele que era primordial na minha existência patética que por altruísmo apaixonado, sempre girou a volto do rei que tens na barriga. custa pensar que - com o pen...

não mata nem mói

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- como pudeste tu deixar-te enrijar de frio? como deixaste que ele te abraçasse no seu encanto mórbido de cadáver feliz? - sabes quando a dor que tens no peito não é sentida em mente, quando sabes que nenhuma puta de analgésico a fará desaparecer? é aí que chega o frio sobre a forma de morto sorridente. porque o gelo é uma morfina natural. funciona. adormece o estômago e o coração, e deixa-o morto, esmagado sobre a água solida que nos faz de chão e de tecto. deixa-o lá a enrijar em pedaços, até que um dia, mesmo que se consiga descongela-lo, a única coisa que resta são migalhas de miocárdio esmagada, pedaços de tecido morto. que não palpita, não mata, não mói.

foi aqui que ele me deixou, é aqui que ele me vem buscar (...)

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- quantos dias passaram desde que ele partiu? há quanto tempo o esperas? - não sei já, os dias já ultrapassaram os anos, as horas já ultrapassaram os dígitos possíveis, o segundos já ultrapassaram o contável. - e por que ainda aqui estás? - porque foi aqui que o conheci e foi aqui que ele me deixou. neste deleito de sempre, nessa minha praia predilecta, traçada pelas nossas cores berrantes, as nossas cores fartas e que tantas vezes me travam o coração, me rasgaram a língua com o ácido que as memórias guardaram. e eu sei o que estás a pensar: estou a perder o juízo. já não sei mais a data dos dias, o numero dos ponteiros do relógio. não sei mais que língua falo, que nome me chamam. estou perdida daqui, perdida de mim e deles. tudo porque fui abandonada, aqui, nesta minha praia por eleição, porque foi aqui que ele me deixou, foi aqui que o vi pela primeira vez. - e vais continuar aqui o resto da tua vida? - não, vou ficar até que ele volte. vou esperar até que ele volte. - e se ele não v...

fiel fiel

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- gostei de te ver a comer batatas enquanto todos comiam carne. - porque dizes isso? - porque é bonito. ser fiel ao que se ama é bonito.

memories

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não me esquecer prometo. nem as cicatrizes, as tatuagens, o cabelo no lixo da casa de banho, os olho borrados, as rochas, os calhaus no meio do caminho, os concertos, nos banhos e as conversas ordinárias à hora de jantar, a happy a fazer de bíblia, a bíblia a fazer de lenha, o álcool a tornar-se água, o sangue a tornar-se álcool, a água a tornar-se vinho. não vou esquecer os bailes, os saltos altos e a lama, vou recordar para sempre as bolachas a virarem cinzeiros, as costas a virarem cicatriz, o mar a virar vinho. e não esquecer os berros, as nódoas negras nos joelhos e as conversas no parque, não vou esquecer as escolhas, certas ou erradas, certas ou precipitadas. não vou esquecer o algarve, nunca hei de esquece-lo, não vou esquecer os semis, os quartos ou a nossa eterna maionese. e vou lembrar-me sempre que ouvir a palavra espreguiçadeira, sempre que ouvir a palavra barco, a palavra virgem. o leme e o remo, o leite e a cerveja, as riscas e o discoclub, a moranguita e o baile, triâng...

amo amor amor, dizias tu

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sim, que raio de mentirosa te foi sair, que raio de paixão essa. amor amor , dizias tu num silêncio profundamente apaixonado. e que te dizia o meu silêncio? que cantava ele para além de meia dúzia de mentiras que não ousava contar-te, para além de mil fantasias sexuais que eras incapaz de compreender. oh, como desejei eu que o meu silêncio também te dissesse amor amor amor. teríamos sido perfeitos de facto, mas isto não são facto meu querido. são devaneios. boa noite, boa sorte.

não posso abraçar as palavras que sussuraste

ouve assim o meu coração a suar, a arfar sobre os gumes do teu peito. ouve-o gemer sobre a dor dos teus olhos, sobre a sobrecarga de muitos nós  idos, de tempo idos, de memórias riscadas por vagabundos maníacos, de loucura feita, de corpo perdido. a raiva que tenho possui-me por me teres feito odiar este meu corpo que acolhe todos os meus vícios decalcados, todos aqueles que por luxuria não sei mais largar. e nem esse tu tão doce, nem esse  tu que jurei saber em noites idas, nem ele é capaz de vir buscar aquilo que por avareza estrangulou, nem ele consegue esticar-se mais do que o típico apontar do dedo. oh malvados copos de vinhos, copos quebrados sobre o sangue do meu corpo, veias rasgadas, suicídios de madrugada, pudesses tu vir ver-me nua, gorda e gasta nesta cama em que tanto gemeste. viesses tu ver-me assim, tão finalmente cristalizada nesta minha loucura puramente doentia, oh pétala amarga, sangue de teor alcoolizado, vem dar de beber a esta minha boca seca de nós, esta...

sonhos envenenados

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Os segundos demoram anos a passar, o bafo a arguardente velha insiste em ficar nesta minha garganta arranhada, queimada. Os olhos ardem por estas lágrimas quentes a ponto de ferver, a ponto de queimar o rosto que as amparam, o estômago dobra-se sobre as dores tão habituais, tão caracteristicas destes meus vícios, deste meu modo de amar a vida. Oh dores minhas, torturas nas madrugadas em que me acordas, soubesses tu o veneno que queima cada sonho meu, cada sonho em que faço do meu, o nosso.