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Recordo-me de quando as minhas feições eram apenas rascunhos, quando sonhos faziam de todo sentido e brincar aos legos durante horas num cubículo sem sol fazia ainda mais. Tempos bem doces recordo, em que eu - de cabelos compridos e penteados, dois furos nas orelhas, pulsos limpos, língua e umbigo intactos - era ainda filha de duas mães, de feições semelhantes, de essências assimétricas e de corações de puro ouro, puro amor, uma pela filha que pai não teve - mãe esta de sangue que me viria a ensinar tudo o que sou hoje, tudo em que acredito - e outra pela filha que sempre quis e nunca pode ter - que me ensinou durante anos a amar aquilo que era diferente, porque todos somos diferentes, todos temos defeitos e todos somos, de maneira diferente, perfeitos. Tempo amáveis, dizia, em que eu - de inocência centrada num livro antigo, de religião escolhida, com valores morais do mais católico que se podia ver - era também neta de quatro avós, duas d...
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"home is where you're comfortable dancing around without music on. home is in your arms, darling."
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eu estava bem, eu sentia-me bem, reconfortada com esse teu esquecimento quase imediato. eu tinha quase aceite a impossibilidade da remota hipótese do teu retorno, eu tinha-me habituado serenamente à voz rouca e engasgada da minha mãe quando desleixadamente ainda perguntava por ti. eu estava bem, eu estava tão bem, tão bem sem ti . sem te ter constantemente enfiado dos meus nunca-mais-serenos sonhos, nos meus nunca-mais-conscientes devaneios. até ao dia. até ao dia em que decidiste lembrar-me que te disse tantas vezes que iria amar-te sempre, com os meus lábios rasgando os teus no calor do meu desejo, lembraste-me assim a maneira bárbara como ousava dizer-to: "serei sempre eu a amar-te mais". e sou, ainda hoje o sou, amando-te sempre mais, ainda que agora pouco, comparando ao infinito de dias anteriores. boa noite dôdô.
"Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois. Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encon...
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dei sempre tudo o que tinha em honra desse ideais tão loucamente apaixonantes, e agora? o resto desse trapo velho que era um coração fraco, um tanto ou quanto adoentado, que gemia frases tuas, com uma eloquência digna de romances pré-históricos, esse trapo está ainda mais gasto, a rasgar o limite do real, entre o sem-abrigo e o esquizofrénico, sem nunca saber em que lugar estar. era como se todos aqueles pequenos refúgios, de lama e sangue, fossem o seu lugar de eleição, ao mesmo tempo que eram a sua sina, a sua perdição, o seu labirinto de caminhos ainda por definir. sim, como vagabundo, meu vagabundo, perdido em ruas certas por se sentir tão errado, porque aquilo que tatuou na pele nunca ficou tatuado no ser, porque cortar o peito não é o mesmo que decorar a epiderme. bom dia  - por hoje, era tudo o que não queria.

amor utópico

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contador de histórias, de sábados a rasgar o infinito e de domingos de légua curta. seria esta a descrição que encaixava no teu tom de pele meio morena, nos teus lábios a cada dia mais carnudos, de um rosa brilhante, quase maquilhado. seria assim que choraria os cacos da tua imagem, que gemeria essas memórias rascas dos teus lábios colados na minha pele pálida, relembrando como a tua respiração me levara - muitos anos antes - a sonhar alto de mais, longe demais. tudo porque sobre o suave toque dos teus dedos no meu rosto ingenuamente enrugado, ficaram memórias promiscuas das tua mãos grandes, alargadas à extensão do horizonte, perdidas entre os nós dos meus ruivos caracóis. memória que muitas vezes me rasgou a ideia utópica que tinha da tua sensibilidade masculina, tudo porque de nós apenas sobraram picos, com nada de cravos, nada dessas sempre utópicas rosas, oferecidas num qualquer dia festivo ou apenas quando dizer desculpa ...
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quero que voem confétis, que seque a chuva que virá nos dias de sempre, nos nossos secos dias de sempre. quero adormecer ao lado de uma garrafa de água cheia, assimétrica ao whisky tombado no chão em frente a mesa de cabeceira. o meu cigarro por apagar, pousado sobre todas as tuas beatas extintas faz-me curvar de dores, de vómitos intemporais, de gemidos. faço-me tombar com o whisky, tombar como a lua tombou de madrugada. tenho saudades, pronto já disse, morro de saudades, literalmente me deixo morrer entre os teus vícios e os meus, entre aquilo que não quero lembrar e aquilo que não consigo esquecer: o sangue sobre a parede branca, o negro sobre a pele morena e a mancha branca nos lençóis azuis. a morte trás, assim, até mim cacos que não quero mais que sejam meus se já não são nossos, cacos outrora teus, coisas de bilhetes antigos e vinhos de vinhas caras, caríssimas! como te descrevi a ti, em noites assim, à sombra de um cand...
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é apenas durante a noite que quero que fiques, que te deites e aconchegues nestes recantos preciosamente protegidos por nós dois, apenas de noite te permito palavras cegas com amor e esperança , apenas de noite me dou ao luxo de te amar um pouco mais do que de manhã. sim, apenas de noite me fazes rir entre gemidos de prazer, para no fim ficar embebida num silêncio profundamente apaixonado, contornando os traços do teu rosto sem nunca os querer esquecer. sou de noite, sou tua de noite. tudo porque de dia, com o simples raiar do sol entre as tuas persianas mal fechadas, nada conseguimos dizer um ao outro, nenhum gesto ainda que um pouco embriagado consegue ter significado, não consegues pronunciar as mesmas palavras difíceis que proferiste horas atrás: meu amor . não consegues fazê-las ouvir, não na mesma língua, não com aquele entusiasmo e romantismo com que me sussurraste, vezes e vezes, entre os teus gemidos de luxuria perdida e o teu arfar de mi...
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papá fica, papá não vás, sei que fui chorona, que fiz birra para comer a sopa, sei que não quis adormecer enquanto berravas, que berrei com a mãe sem motivo, e agora tu vais embora, e agora a culpa é minha. oh papá fica, fica para me ensinares a andar na bicicleta sem rodinhas do mano, fica que que quero ser levada ao altar enquanto me sussurras o quanto estás nervoso, o que me fará mais nervosa a mim. fica papá. quero ainda ver os demais filmes que alugarás e assistir às infinitas discussões sobre religião e politica, tão problemáticas nesta nossa casa tão pequenina. não vás mais embora papá, não vás e eu prometo que não saio nunca mais de casa, não fujo pelo terraço nem vou dormir à vovó, eu fico cá contigo, até que os teus míseros cabelos brancos se espalhem pela nuca e pela barba. fico cá para me ensinares a andar de carro quando for muito velha e a idade assim me pedir. eu vou portar-me bem, eu não vou discutir com o mano, eu não vou morder nos outros coleg...

derrame embriegado

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bebedeiras repetidas, simples utopias do que costumava ser a saudade, a cerveja entornada sobre as pedras da calçada daquela cidade alheia, e as manchas de vinho tinto nas roupas já escarlate. saudade, soubesse eu explicar o que fora para mim essa palavra tão portuguesa, a maior das fantasias humanas, a ideia de amar e ser amado, bebedeiras apenas, palavrões de taberneiros, nada mais do que lágrimas que embebedam vagabundos, do que crenças pura e ingenuamente infantis. e ainda assim, certa de que no amor nada nos resta para além da eterna sofreguidão dos outros, a utopia de querer comer sem ser comido, ainda assim me perco, entre os desastres esperançosos de amores históricos, quando a única coisa que quero dizer-te é que o meu amor - utópico, ridiculamente irreal e injustamente morto - te espera neste espaço psicológico de inferno e insatisfação, no desassossego deste ruivos caracóis, de robe escarlate, sobre a lividez d...

derrames de esquinas distintas

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o silêncio do meu próprio corpo derrete-me a alma, este desassossego de quer ser tão intocável, de quem quer ter o que tinha sem sofrer as consequências do tempo, dos dias. enganei-me, quis ser aquilo que o meu padrão me pede, quis ser imune as consequências dos meios que nunca justificariam o fim. e quis morrer de amores em esquinas diferentes, quis que um deles me levasse ao nirvana inatingível e me conservasse tóxica no apogeu daquele orgasmo. quis que uma dessas esquinas me engolisse, me amasse desse modo que só eu entendo, de um modo imensamente carnal mas que nada acrescenta à minha viagem interior. e quis que essa relação de esquina se mantivesse saudável, que amar assim me mantivesse doente de tão apaixonada. mas o amor morreu, morreu longe, numas quantas esquinas à frente, morreu de frio por andar nu na rua, em correrias desenfreadas sobre uma chuva gelada de um inverno violento. e a minha...

derrames incendiários

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a vida toda ouvi dizer: onde há fumo, há fogo . e vou calhar aqui, neste metro quadrado de cidade onde a lei é: onde é fosforo, há incêndio.

derrame de nicotina

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por favor, deixa-me só fumar um último cigarro antes de fechar a janela, o último antes de apagar a televisão, por favor, só mais um antes de me meter nessa nossa cama. deixa-me só afogar-me num vicio mais antes de me deitar aí, onde - embora acompanhada - terei frio a noite toda, aí onde os fantasmas tanto aplaudem as minhas lágrimas de bela adormecida, aí onde adormecerei a chorar bem longe desses teus braços abertos. para acordar de manhã num sufoco, com a ideia de que de um sonho se trata, e assim que a realidade de der um valente estalo pela manhã, eu vou ligar a rádio, vou acordar-te o sono, vou abrir a janela e fumar o que resta do meu maço.  e vou matar-me assim, desgostosa porque a realidade a mim não me diz nada.

derrame vazio, completamente morto.

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hoje, logo hoje que toda esta raiva me enche o peito vazio. hoje a poligamia morreu nos meus lençóis porcos, morreu nua, de cigarro na mão e linha ainda torta, morreu sedente, completamente insaciável, porque nenhum alguém a fazia gemer do jeito que mais gostava. a poligamia morreu - como sempre - sozinha, sem padre à cabeceira, apenas uma garrafa quase vazia de aguardente velha, um tanto ou quanto entornada. e o erotismo morreu assim, quase tão virgem como a freira, sem conseguir reter na memória morta algo de bom para guardar, um gemido apenas, um cliente apenas que tivesse valido a memória. mas não, esta puta morreu-me assim, sozinha, sem ter tido tempo para me alinhar a branca, morreu-me doente, tão podre no físico como na alma. sozinha, repito: sozinha . e a consciência, calada desde que sou capaz de recordar apenas tossia.  cínica, ficou calada anos a fio, viu-me morrer em bebedeiras sóbrias dos outros, viu-me foder a vida mais do...
Hoje o meu corpo torna-se cadaver. Logo hoje, quando o mundo se decidiu a ser o meu caixão

putas modernas

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E eu cheguei ao ponto de não saber mais quem tem a razão, as pessoas e a suposta lógica que usam e abusam para viver ou sobreviver entre os outros já não faz qualquer sentido. Para eles, pensar é um cliche , como dar rosas a uma mulher, todos o fazem, todos chegam a mesma definição de bem e mal e no final, a história e sempre a mesma. Caiu, berrou . Se calhar fui eu que pensei mais, ou menos, mas foi-me impossível chegar a uma definição concreta de todas essas questões morais que tanto discutem em conversas de café, esquecidas entre o pacote de açúcar e os cinzeiros. Viver aqui tornou-se imoral, errado, como se já não fizesse qualquer sentido ouvir as vossas palavras rascas, suadas e empobrecidas nas vossas mentiras de putos mimados. Não faz mais sentido os sorrisos cínicos à meia luz de um bar já fechado, chega de mentiras assim, de cacos assim, tão docemente cristalizados nas vossas epidermes pálidas, homogéneas no meio de tantos iguais. Ser humano tornou-se mau, pecaminoso, sê-lo nã...
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e foi rasco de ti achar que em mim podias ficar. foi tão tipicamente ordinário que fizesses de mim uma puta como todas as outras. e eu que tanto me martirizo por achar que fui tão fácil, porque é isso que achas não é? achas que fui tão facilmente tua que nem consegues por em questão a minha capacidade de te ser fiel. achaste que, lá porque tinha voltado, isso significava que seria tua, de corpo inteiro e alma vazia, sim, porque tu nem interesse tinhas na minha alma existente. nunca quiseste saber, nunca ousaste ler as minhas entrelinhas, a minha maneira de ser sarcástica, de usar tanto hipérboles como eufemismos. nada disso era do teu interesse, chegavam-te umas dentadas ao de leve, uma respiração suave nos teus ouvidos, que te levavam a um orgasmo tão fácil e rápido. para ti, desde que a minha interacção permanecesse um mistério para a tua precária mente, então tudo estava bem, porque no teu pensamento primário, tudo o que era novo e que ainda não tinhas visto noutro alguém, era perfe...

lábios cremados

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e naquela manhã empoeirada, num quarto sujo dos meus orgasmos fingidos, sob o ar carregado dos teus inaudíveis gemidos, os teus lábios souberam a pó. nada em ti soube e mim, nada pela manhã teve o perfume da noite anterior, dos dias anteriores. e não porque estavas gasto, demasiado usado apesar da tenra idade, não. o teu desgaste era de mim, de um corpo que conhecias como impuro, que sabias não ser fiel ao que desejava. sentia ainda os teus lábios cerrados sobre os meus seios quase inexistentes de miúda, e a ideia de te ter na mesma cama, desnudado de tudo, seria sempre o auge da minha libido. mas a ideia de te ter comigo, sempre na mesma mesa de jantar, em diferentes salas de cinema, já não seria o auge da minha satisfação pessoal, apenas um carrego, algo que seria desconfortável com o passar das horas. já não conseguia amar-te. naquela manhã, o meu corpo levou a minha alma à imunidade de algo tão dramático como amar.

amor é crença

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- porque deixaste de cá vir? de apanhar o mesmo autocarro todas as sextas? - porque a minha frieza tornou-se volátil entre os teus lábios grossos e novos. por vezes, nua na tua cama vazia de todas elas, eu sentia-me vulnerável, não por saber que os teus ouvidos se enchiam de orgasmos alheios (porque eu sei que não), mas sentia-me completamente desarmada pelo teu encanto de miúdo novo, feliz. estar contigo mostrou-se um perigo, já não era seguro que poderia sair dai como tinha entrado, com o queixo erguido. - amar é ser vulnerável, sempre ouvi dizer. - o amor está morto miúdo, há muito. o amor é uma hipérbole usada pelos poetas, o amor é sobrevalorizado, tal como a perfeição. não faz parte de nós. o  amor  de que tanto falas está sujo, completamente embriagado connosco, faz-nos companhia nestas ruas que pela noite fora se vão entortando. amor... - porque te custa assim tanto acreditas que me amas? - porque sobre o amor fizeram-se cântigos antigos, musicas modernas, livros ...

à tona

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Mas eu ainda creio que és doce, que bem no fundo não passas de algo quente que for amornado até se tornar um gigantesco e intocável cubo de marfim. Mas eu sei que ainda és fina, de um certo modo delicada, que o teu pai ainda acha que bebes água em todos os jantares e que dormes sempre em casa de amigas diferentes, cujos nomes vais inventando com base na imaginação da noite anterior. Tudo porque tu não és tão fel assim, não és esse ácido que juraste a ti mesma cumprir, és - novamente - algo que era doce e que foi amargando ao longo do tempo, foi ficando enferrujado e perdendo a prática, o jeito. Mas no final de contas, tu foste a que nunca se deixou estagnar, a que não se deixou apodrecer e morrer nas mesmas ruas ordinárias de tantos outros sem nome. Tu ficaste acordada, alerta em relação a noites como aquelas em que foste deixada nua, sozinha, na tua piscina da casa de verão. Pronta a afogamento, longe de tudo o que - todo os dias - luta para te deixar a tona.