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derrames de gente demente

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demências. algumas vez passamos disso? eu e tu, nunca passamos de ser mudos e insanos, que nunca souberam bem as arestas sóbrias da palavra amor . não sei se és tu, mas isto já não sou eu. não sei se sou egoísta o suficiente para não querer isto para mim ou se sou altruísta em demasia para não querer isto para ti. e amor é uma palavra bonita, ensinaste-me isso sem que duvida ficasse, mas não me fica bem, é uma palavra que não nos  fica bem.

derrame de Reis

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Ele tem aquele tempero que te falei sabes? Aquela desumanidade que o torna em algo perfeitamente equilibrado. É a proibição de tudo o que nos dá prazer e assombra a libido, como uma despersonalização de todo o ser. Ele coage-se a viver a vida como eu, nos recantos e desencantos de um coração desapaixonado de tão morto. Deixando passar a vida sem tirar aquele proveito carnal, sem rasgar a pele ou roer os próprios ossos. O controlo emocional que nele vejo é - na maior das ironias e paradoxos - a ausência disso mesmo, o desligar de todos os botões humanos que nos levam a amar ou odiar, que nos levam a retirar prazer de cada pequena coisa que fazemos e que - no final - pode vir a ter consequências. Ele tem tudo o que desejei para mim e não consegui, toda aquela firmeza e indiferença ao próximo, o aproveitar do presente ainda que distante, o cansaço de uma vida que passou sem dar conta, porque não ...

derrames das minhas letras sobre as nossas verdades

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para onde foste tu naquela noite em que te esperei até madrugada? onde estava esse teu amor pingado que me obrigava piamente a te esperar? eu procuro. eu procurei e esperei por aqueles teus impulsos pelos quais me apaixonei, pelos ramos de flores na secretária do meu escritório e a banheira do quarto de hotel coberta de uma espuma colorida. eu procurei em ti - anteriormente a maior paixão dos meus dias - aquilo pelo qual de baixei, aquilo que me fez esquecer os vómitos que me dava a palavra amor, fazer amor, monogamia . e agora, que nos vejo a uma distancia ridiculamente metafisica, eu não encontro mais significados para palavras como essas, sem ser nas minha letras encantadas, que os convencem e que quase nos convenceram a nós de que era verdade. as minhas letras, pingadas por memórias dos teus amores, quase que me mentiam, quase que me faziam cair de novo no erro de te pedir em casamento. ao lê-las, ao longe e exteriorizando-me, eu acredito profundamente no poder d...

like crazy

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os últimos romances que me dei ao desplante de ver desapaixonar-me like crazy

derrames de outonos frios

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ela cobre o rosto por entre os dedos gelados do inverno, espreita suavemente para reencontrar aqueles olhos azuis, intensificados pelo horizonte e morrer no laranja-mar de um por-do-sol adiantado. e os seus lábios rachados de frio abrem-se numa tentativa de contar a verdade e pedir desculpa. mas o corpo cala e a alma mente. fui eu? pergunta ele com aquela mistura angelical de cores a dissolver-se em lágrimas há muito por cair. e aquela vontade instintiva de dizer a verdade parece ter desvanecido como uma adolescente que ao ouvir a palavra amor sorri mas não acredita, porque faz parte da idade ser-se mentiroso, faz parte da idade ser-se infiel. ao retirar os dedos da face encontra-se de pele gelada, com escamas a cristalizarem-se sobre o corpo engelhado e ferido, constantemente destruído por acção própria. e ele diz a palavra amor de novo, com uma certeza maior do que a anterior e maior que a primeira de todas. sofia cala, sofia sente o coração parar de bombear, o sangue gelado...

derrames de divorciados

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Entristece-me saber-te assim, entender cabisbaixa o teu desencanto de quem foi descoberto e já nada tem para mim. É triste e cristaliza-me os sonhos saber que fomos por anos loucos um amor padrão, um o-amor-tem-de-chegar. E agora somos apenas seres desmembrados a quem o amor cessou e o ter-de-ir o ter-de-aceitar-ir foi bem mais forte que amor de outros tempos ou o respeito de um presente adormecido e tristonho. Porque o amor foi, teve de ir. E eu tive de ficar, cristalina a ver-te ir de mim para os outros.

Derrames de desapaixonada(os)

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Desculpa se nestes dias empoeirados te consigo dizer tanto tanto, se não consigo calar estes lábios que ao passo que tanto te amam também te vão julgando cada vez mais, julgando-te mais efémero e incerto do que na noite anterior, porque as tuas noites mudam e caem enquanto as minhas crescem a um compasso desmedido de razão. E a tua efemeridade aumenta ao ritmo que vai minguando, inexplicavelmente por entre os meus dedos de descarada podridão, que constantemente te agarram e constantemente te perdem, escorregando suavemente onde nem sempre querem ficar.  

derremes de escritora(s)

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      "Eu sou uma escritora - convenceu-me ela - é isso que eu sou. Dizia-me que tenho a personalidade vincada de alguém que pensa bem mais do que fala, alguém que sente bem mais do que transpõe. Não tenho olhos que falam não, tenho olhos que gritam e que por tanto gritarem também mentem. Memórias vincadas - diz-me serem jeitos vincados, manias que nunca se perdem - de quem, com pouco mais que olhos derretidos, conseguia companhias para as longas horas da madrugada que se avizinhava. E com olhos que nunca adoçavam, assim os mantinha, estáticos e abertos pela noite dentro, sem os fechar para dormir, levantando o queixo num movimento atroz e com ele levantando o corpo todo, e sem beijinhos de despedida, sem pestanejar sequer saía tantas vezes com aqueles olhos ordinários de que falavas. Dedicando tudo o que o coração não calava a umas miseras linhas de abertura de alma e fechar dos olhos, que tanto se cansavam de ver. E nos domingos de sá...

derrames da primavera em que me deixaste

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assim que o sol se pôs, se foi também o nosso sol por trás das colinas que nos esperam - ou esperavam - cansadas de encostarem a vales sem apoio. e, com o desencosto delas, fomos nós também, nesse determinante tão estranho no que toca a duas pessoas tão separadas: nós... parece uma memória irreal, há muito sonhada e esquecida, esse dia de uma primavera cansada em que me sorrias de lábios rasgados de beijos, com uma doçura em ti irreconhecível, enquanto me desenhavas flores de lótus nas minhas costas nuas, dizendo-me - naquela tua cama virada para o por do sol apagado - que simbolizava a pureza do meu ser, esse ser que tu amavas sempre , incondicionalmente . 

derrame daquilo que me tiraste

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para ti o desafio era amar-me, algo assim tão deliberadamente avariado, tão alucinado por natureza, que nunca te diz a verdade de chapa, que vai dizendo, vai explicando, vai-te contando pedaço a pedaço os cacos em que a sua alma se desfez. para mim o desafio era manter-te, ser-te fiel de alma quando o meu coração já o era, o meu desafio era nunca romper-te, não te cortar aos pedaços na frieza de uma lamina aguçada, tentar não te morder, não te roubar um bocado, não te arrancar a vestes no meio da rua. para ti o desafio era conseguir amar-me, para mim era amar-te um pouco menos, ou pelo menos não desejar cada pedaço teu em dentadas maiores do que a minha boca.

derrame do inverno que em mim criaste

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O congelamento do músculo é afinal o mesmo em todos, a dor debilitante que te faz querer vomitar e comer ao mesmo tempo é imutável, exactamente a mesma. É como uma mulher rabugenta com dores menstruais, tal e qual. De noite, quando o sangue insiste em gelar as veias e o peito ficar rijo, erecto do sangue perdido, que vai bombeando nas artérias mas que não volta nas veias gélidas neste inverno precoce, nestas noites em que me acordas ainda sonhando, nas noites em que não me sonhas. E os dedos dos pés tremer e o sangue não sobe, não circula, concentrando-se apenas no cérebro, ligado a toda a hora, sem descansar um minuto que seja, agora independente de todos esses sensores, independente de qualquer órgão sem ser ele mesmo. E o cérebro dita-me apenas a razão e nada mais, em todas as zonas sensíveis ao exterior o cérebro morre enxague, desliga, congela, deixando-me apenas com uma razão de visão apur...
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- Tu tomaste-me como garantida, achaste que - por usar o teu anel de noivado - isso me tornava irreversivelmente tua. E eu fui. Fui tua em todas as noites, de segunda a sexta, em que esperei sozinha naquela enorme cama que para nós compraste. Fiz o jantar todos os dias - para mim - naquela mesa gigante da tua gigantesca sala de jantar, e esperei tantas vezes no silêncio daquelas paredes que me surpreendesses, que o teu tão desejado trabalho te desse um dia para mim. Eu esperei por ti em todos os dias em que me disseste que não virias, eu esperei-te na mesma, eu amei-te na mesma. Amei-te desde o primeiro dia até agora, até sempre. Mesmo sem saber se sozinho dormias, eu sozinha adormeci, de segunda a sexta, esperando todas as manhãs por ti na (mais minha que tua) almofada. E hoje vim até aqui, vazia, chupada até aos ossos, porque te amo, porque ainda te espero, e vim hoje devolver-te o anel de noivado com me deste, devolver-te este gigantesco diamante que usaste para encobr...

há um ano com a estrela mais bonita do céu

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Foi no intervalo da paixão dos meus dias que tive saudades de te ver ficar. Quis ajoelhar-me sobre aquela terra cheia de mortos, afogada em símbolos religiosos nos quais não conseguia acreditar. Quis deixar-me ali junto daquela arreia, mais perto de ti ainda que longe, onde sei que apenas o teu corpo descansa, imóvel e exangue, sob a crença à qual dedicaste a vida. Quis agarrar-te a mão, o peito, sem que isso te enchesse de dores, sem que isso te enchesse de coisa alguma. Quis que aquele espaço coberto de cadáveres conservasse o teu sorriso doce e excêntrico, aquele que a tua morte e a tua fraqueza levaram para bem longe de mim. Quis que, naquela campa com um mármore lindo, estivesse apenas o teu nome e nenhum outro, nenhum outro amor teu que a vida não me deixou conhecer. Desejei, com lágrimas a ferver-me as faces, que aquele jarro pregado à pedra não estivesse cheio de falsa flores e que as minhas - modestas, imperfeitas, apa...

blue valentine

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O romance mais desapaixonante de sempre.
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- Eu pedi-te em casamento no dia em que me deste o teu manuscrito, agora é altura de o devolver. Não posso amar-te mais, consigo e quero mas não posso. Fartei-me de fingir que estava tudo bem, que tu não me vias como eu me via, fartei-me de perceber que eras surdo e cego por vontade. Enjoei de chegar a casa sem o teu cheiro e sem o meu, encharcada num outro perfume qualquer, de outro qualquer que não tu. Cansei-me de inventar desculpas como noites no escritório ou   jantares com as amigas . Eu amo-te, todos os dias em que te menti te amei, todos os dias em que pensei que era mais fácil assim, que pensei que nunca ias sentir-me os dentes, as unhas, as facas que te espetava no peito, com uma delicadeza extrema, como um gato que espeta as unhas enquanto ronrona no colo do dono. Eu era assim para ti, nunca me cansado de te furar a pele enquanto ronronava, pensando que - tal como me tinhas dito um dia - mais valia ficar calada do que magoar-te, enganando-me nessa tua ideia de que a...
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"Também em francês trocava as palavras, mas o seu chofer Augusto não só a compreendia, como lhe respondia com palavras ainda mais embaralhadas. Ela o chamava de Eulalie, e ele, com avançada esclerose, atendia à vontade pelo nome do antigo patrão. E sentava-se com ela no sofá, dava-lhe o braço no jardim, permitia-se chama-la simplesmente pelo pronome, também afrancesado para Maria Violette. Quando Augusto morreu na cama dela, usando um pijama com o monograma do meu pai, mamae enviuvou de novo, de um luto mais profundo que o primeiro. E agora já não falava língua alguma, não se locomovia, nem sequer chorava, me enternecia assisti-la assim, com uma tristeza enfim cristalizada." Chico Buarque em Leite Derramado
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Queres mesmo saber a minha opinião? Lembraste quando - numa conversa das nossas à luz inexistente de um café fechado - me perguntaste a que me sabia o amor? Lembraste que te respondi com uma doçura extrema - a mim - o amor sabe-me a muito. A ti, o amor que antes era o típico, aquilo que nem te aquece nem te arrefece, passou a ambos os extremos, ou te ferve - perdendo assim toda a tua essência, deformando as arestas daquilo que realmente és - ou te congela, solidificado cada veia até ao foco, até ao músculo, até aquilo que já não acelera quando se toca na ferida. O amor, para ti, é exactamente como o café, para ti . É aquilo a que te habituaste mal, que te deixa dormir embora sempre irrequieta, aquilo que sempre te soube mal, a puro fel, amargo até ao extremo, aquilo que sempre foste cobrindo de açúcar. No final do dia tu chegas à conclusão que nem gostas de café, detestas o sabor do café, e apesar de quereres moldar-te ao seu sabor natural, tu enches sempre tudo...
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"Como sempre, acabei por ser eu a cair sobre mim mesma, dobrei-me sobre os meus novos vícios e, aceitando-te como minha droga, cobri-me de seringas e de saudades. Enganando-me assim num monogamia que nem nunca cumpri, despindo a minha máscara preferida, a minha lingerie preferida, mostrando-te assim as minhas cicatrizes e as minhas manchas. E no final, foste tu mesmo a derramar o meu sangue sobre o teu corpo disforme, enterrando-me exactamente onde me havias desenterrado antes. Farta estou eu deste cemitério de nós, estou cansada de engolir esqueletos nestas noites cada vez menos finitas em que insistes em gemer dentro de mim quando a única coisa que quero é morrer. Morrer fora daqui, longe de ti." Agosto 2010
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Foi nesta vila velha, aterrorizada, onde outrora se gritaram uivos a r eis  e rainhas, que os meus  pés  rastejaram suavemente, como quem beija a calçada enorme, disforme e gasta que me viu baptizar um dia, há uns bons anos, há uns poucos anos. Vila esta onde o som dos meus batimentos  cardíacos  se fez sentir nos meus passos curtos e  embriagados , por descalçar, som esse - jamais  romântico  num coração, outrora, tão deslavado como o meu - que fez ranger as paredes rachadas de tão velhas, escurecidas pela falta de iluminação artificial, deixando me com dois pares de passos desconhecidos, de passadas largar e tosses roucas, seguindo-me ao longo desta descida tão longe de ser finita, à quase  inexistente  luz arrepiante de uma Lua um pouco mais que cheia, amarga por natureza, morta e mesma assim crescente e decrescente ao longo do ciclo. Foi aqui, à luz de uma Lua semelhante que eu me perdi de mim, para te encontrar a ti.
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Recordo-me de quando as minhas feições eram apenas rascunhos, quando sonhos faziam de todo sentido e brincar aos legos durante horas num cubículo sem sol fazia ainda mais. Tempos bem doces recordo, em que eu - de cabelos compridos e penteados, dois furos nas orelhas, pulsos limpos, língua e umbigo intactos - era ainda filha de duas mães, de feições semelhantes, de essências assimétricas e de corações de puro ouro, puro amor, uma pela filha que pai não teve - mãe esta de sangue que me viria a ensinar tudo o que sou hoje, tudo em que acredito - e outra pela filha que sempre quis e nunca pode ter - que me ensinou durante anos a amar aquilo que era diferente, porque todos somos diferentes, todos temos defeitos e todos somos, de maneira diferente, perfeitos. Tempo amáveis, dizia, em que eu - de inocência centrada num livro antigo, de religião escolhida, com valores morais do mais católico que se podia ver - era também neta de quatro avós, duas d...